Quando sexo dá dor de cabeça
Sempre precipitada pela atividade sexual, a cefaléia coital é uma doença
que atinge principalmente os homens, em geral após os 30 anos.
Antonio Cezar Galvão
Já se foi o tempo em que a famosa dor de cabeça era considerada uma desculpa esfarrapada para recusar uma relação sexual com o parceiro.
É fato cientificamente comprovado a existência da cefaléia orgástica, a dor de cabeça que acontece durante o contato sexual. Tudo começa três minutos antes da sensação de prazer, evolui rapidamente, atinge o auge no momento do orgasmo e persiste nas horas seguintes. A situação incômoda pode atrapalhar bastante a vida de um casal, já que a vítima da dor começa a evitar as relações sexuais com o parceiro, gerando insatisfação entre ambos.
A cefaléia orgástica benigna, como é chamada, pode acometer homens e mulheres, mas as vítimas mais comuns são aquelas que já sofrem de enxaqueca. Estudos indicam que a proporção seja de seis homens para cada mulher e pode aparecer de uma maneira regular ou imprevisível, desaparecendo por algum tempo. Em metade dos pacientes afetados, a dor ocorre apenas uma vez ou em um único surto.
Ainda não se sabe exatamente as causas, mas acredita-se que os principais fatores desencadeantes sejam o estresse emocional e o cansaço. Estudos sugerem que a origem esteja na contração excessiva dos músculos do pescoço e da mandíbula, estado circulatório hiperdinâmico ou por aumento rápido da pressão arterial durante o ato sexual.
A situação é decorrente do mau gerenciamento das informações dolorosas no cérebro, cujos neurotransmissores interpretam, indevidamente, a sensação de prazer como uma sensação de dor. “Trata-se de um desequilíbrio químico cujas razões podem estar nos hábitos pouco saudáveis e no estilo de vida de cada um”, explica o clínico geral Alexandre Feldman, presidente da Associação Brasileira para Prevenção da Enxaqueca.
O estresse é um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento do problema. Feldman conta que a maioria dos pacientes que procuram os consultórios médicos com os sintomas da cefaléia orgásmica está passando por alguma situação estressante em sua vida, seja no trabalho, em casa, ou no âmbito afetivo. A qualidade do sono, a alimentação e o equilíbrio hormonal do indivíduo também podem ter grande peso no diagnóstico da doença.
Uma pessoa que só dorme tarde, só come açúcar, doces, pães e alimentos industrializados apresenta, como conseqüência, alterações hormonais. Isso significa estar sujeita aos malefícios da cefaléia orgástica. “O tratamento consiste justamente em modificar esses hábitos a longo prazo. O ideal, por exemplo, é ir dormir cedo, e não subordinar esse hábito à programação televisiva noturna ou ficar até tarde da noite na internet. Dormir tarde demais influencia no equilíbrio químico cerebral”, adverte o clínico geral Alexandre Feldman.
Já o uso de medicamentos deve acontecer a curto prazo. Se o paciente se acostumar a ficar tomando remédio por tempo demais, a medicação corre o risco de não fazer mais efeito. Aqueles que se acomodam e ficam só com os medicamentos também podem sentir os efeitos colaterais dessa medicação. A depender de cada remédio, a impotência sexual, a sonolência, as complicações gastrointestinais e a tontura podem estar na lista desses efeitos.
Além da cefaléia orgástica benigna, existe a chamada cefaléia orgástica maligna. Mais grave e mais rara, a patologia é provocada por um aneurisma cerebral que pode levar à morte. Nesse caso, o acompanhamento médico é fundamental e os exames são mais detalhados. Não há estatísticas confiáveis a respeito da cefaléia orgástica no Brasil. Não é difícil, entretanto, imaginar o porquê.
“As pessoas, geralmente, preferem se calar e não comentar o assunto, já que o problema causa um forte desentendimento na relação”, esclarece Feldman. Outro dado curioso é que não são todos os médicos que conhecem a cefaléia orgástica com profundidade. Alexandre Feldman cita que alguns pacientes ouvem de médicos que eles não têm problema nenhum e só estão inventando para chamar a atenção do parceiro ou da parceira. “Se alguém escutar algo do tipo de algum médico, o melhor a fazer é desconfiar e ir atrás de outro”, aconselha o clínico geral.
“Uma coisa é certa: o paciente não inventa a dor que sente. Acontece que nenhum exame é sofisticado o suficiente para detectar a verdadeira causa do problema, que é o desequilíbrio neuroquímico do cérebro”, conclui o clínico-geral Alexandre Feldman.
Fontes: Isto É e Ministério da Saúde


